Bebo Espumante e Trago Verdades

O espumante é um vinho que sofre uma segunda fermentação, a qual gera um composto químico denominado dióxido de carbono ou gás carbônico ou CO2.

Ficou desapontado que eu não romantizei este vinho festivo?!
Prepare-se então que eu vou contar verdades sobre seus primórdios, com realismo quase cruel.

Comecemos por Dom Pérignon

Dom Pérignon, o monge vitivinicultor, o mito

Rod Phillips menciona em artigo sobre a origem do espumante, a suposta história de que Dom Pérignon, um monge da Abadia de Hautvilliers, na região de Champagne, acidentalmente produziu vinho espumante e gritou: “Venha depressa! Estou bebendo as estrelas!” é engolida por muitos, mas pouco provável e não há evidências.

Ele continua, comentando que a explicação mais plausível sobre as borbulhas que Dom Pérignon “descobriu” é que o vinho que ele estava bebendo havia sido engarrafado e selado na crença equivocada de que a fermentação estava completa. De fato, a explicação é que a fermentação havia simplesmente parado, porque a temperatura da adega no início do inverno caiu a ponto de as leveduras pararem de funcionar. Na primavera, quando a temperatura subiu, a fermentação recomeçou, desta vez em uma garrafa selada. O dióxido de carbono produzido por essa fermentação reiniciada se dissolveu no vinho e se transformou em borbulhas.
Isto era um “problema” comum de se lidar em regiões com características climáticas como a de Champagne naqueles tempos, entre 1500 e 1700.

Phillips destaca que esta estória associada a Dom Pérignon parece ter sido criada no início da década de 1820, quando o champanhe estava passando por um renascimento e ao mesmo tempo, a Igreja Católica na França precisava reconstruir sua reputação e seu prestígio. Então, supostamente, esta foi uma maneira de ajudar a restaurar sua reputação, engajando a imagem ao champanhe, cuja popularidade entre os ricos e poderosos da Europa estava crescendo aos trancos e barrancos pelos idos de 1800.

Assim, a criação da lenda de Dom Pérignon foi oportuna. Dom Grossard, que havia sido monge em Hautvilliers antes da Revolução Francesa, escreveu a escreveu em 1821 como parte de uma história geral da abadia que foi claramente projetada para elevar o status dessa- e talvez o seu próprio.

O relato foi adotado pela indústria do champanhe, que passou grande parte do século XIX inventando história e tradições apropriadas ao seu status social. Em 1889, o Syndicat du Commerce des Vins de Champagne declarou que Dom Pérignon era o pai do champanhe. Sete anos depois, publicou um panfleto que declarava, ambiguamente, que Dom Pérignon havia “descoberto” o champanhe seguindo “tradições antigas”.
A própria instituição, agora denominada Union des Maisons de Champagne (UMC), questiona a veracidade da origem de tal declaração, em uma publicação em seu site.

Na verdade, os registros mais antigos de vinho espumante na França, nem são de Champagne, são das proximidades de Limoux, no Languedoc. Onde, em 1531, monges beneditinos na Abadia de Saint-Hilaire, escreveram sobre a Blanquette de Limoux, o qual era um vinho branco que reiniciou a fermentação em um recipiente, gerando em consequência as borbulhas.

Senta que lá vem história documentada!

Christopher Merret, médico e cientista inglês

É fato que os ingleses já compravam muito vinhos de Champagne bem antes da época de Dom Pérignon trabalhar com vinho. Mas, como a UMC destaca na mesma publicação acima referida, entre os anos de 1660 e 1700, tudo o que era francês se tornou o auge da moda.
A mesma publicação menciona que a transformação de um vinho tranqüilo em um espumante era de fato um costume relativamente antigo na Inglaterra.
Inclusive, o registro mais antigo da segunda fermentação de forma intencional está documentado em um relatório de 1662 no qual o Christopher Merret, médico e cientista inglês, compartilha suas observações sobre o assunto com a Royal Society, e menciona a adição de açúcar e melaço com o objetivo de torná-los espumantes e mais alcoólicos.

Portanto, o método clássico, também conhecido como tradicional ou champenoise, ao que tudo indica surgiu na Inglaterra.

Independente de onde e como surgiu, o vinho espumante certamente construiu sua imagem e reputação graças à Champagne, e mesmo que existam outros vinhos excelentes com deliciosas borbulhas, de outras procedências, os provenientes desta mítica região sempre terão um status difícil de ser alcançado.

Saúde!

Marcia Amaral

Referência de Consulta:
https://vinepair.com
https://www.champagne.fr
https://maisons-champagne.com/
https://www.guildsomm.com/


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