Caminho dos Vinhos Terras Altas Catarinenses

Recentemente estive na região do Meio Oeste Catarinense, a convite de Estefânia Panceri, para colaboração no 1º encontro da Donna Confra em Videira – uma confraria feminina que iniciou com este evento.

Videira está a mais de 400 km de distância de Florianópolis. Decidi então aproveitar a minha primeira ida à região para conhecer alguns lugares turísticos e principalmente, visitar vinícolas locais.

Durante minha estada visitei quatro vinícolas de altitude que em 2018 lançaram o Caminho dos Vinhos Terras Altas Catarinenses: Kranz, de Treze Tílias; Santa Augusta, de Videira; Villaggio Grando, de Água Doce e Panceri, de Tangará.
Começarei de traz para frente, relatando aqui da última visita à primeira.

Treze Tílias

Meu último dia de viagem foi nesta cidade pitoresca, onde a influência da imigração austríaca está no visível e no imaginável.

Treze Tílias foi fundada em 1933 e tem desde então o agronegócio como principal atividade – ainda que alguns acreditem que o turismo deveria prevalecer tamanho são os atrativos para tal.

Um dos filhos desta terra, e de imigrantes austríacos, Walter Melik Kranz, fundou a vinícola que leva o sobrenome da família, Kranz.

Como minha visita à cidade foi em um domingo, não consegui visitar as instalações da vinícola que estavam fechadas. Mas, tive uma boa ideia da família de negócios do Kranz pelo varejo que visitei.

Além de vinho, elaborado com uva de viticultores de diversas localidades do estado, Kranz também produz sucos e geleias.

O negócio está diversificando ainda mais, sendo que recentemente Kranz lançou projeto denominado The Farmer’s Apple Juice, oferecendo serviços de elaboração de suco e envase em Bag in Box para produtores de maçã.

Provei alguns produtos e vinhos foram dois que escolhi experimentar: um varietal de Sauvignon Blanc e outro de Cabernet Sauvignon, nomeado Omertà – desse degustei a safra 2015 e comprei a 2013, por pura curiosidade em conhecer o desenvolvimento do vinho cujas uvas são provenientes de vinhedos localizados em Campos Novos (75 km ao sul de Treze Tílias), de propriedade do parceiro neste vinho, Edson Ubaldo.

Creio que o negócio de Kranz se adéqua bem ao meio, pois valoriza os produtos da região e oferece aos visitantes uma boa diversidade artigos.

Videira

A colonização de Videira iniciou-se em 1918, na então Vila do Rio das Pedras. Em 1921, os italianos e alemães dividiam Videira em Perdizes e Vitória – localidades separadas pelo o que é conhecido hoje como Rio do Peixe.

A instalação oficial do município aconteceu em 1944 e o nome Videira deve-se ao fato de a região ser um grande centro vitivinicultor do estado. Nessa época o município recebia diversos imigrante vindos do Rio Grande do Sul.

Como mencionado por Eunice Sueli Nodari, em seu artigo intitulado Vinhos de Altitude no Estado de Santa Catarina: a firmação de uma identidade:
“A vitivinicultura mais expressiva economicamente, em Santa Catarina, está localizada na Região do Alto Vale do Rio do Peixe, que abrange vários municípios. A viticultura dessa região apresenta grande similaridade com a da região da Serra Gaúcha quanto à estrutura fundiária, topografia e tipo de exploração vitícola. A mão de obra, geralmente familiar, é voltada à produção de uvas destinadas principalmente à elaboração de vinhos de consumo corrente e suco de uva, sendo uma parte menor da produção destinada ao consumo in natura. A vitivinicultura do Alto Vale do Rio do Peixe é responsável por cerca de 80% da produção de uva e vinho no estado. Muitas vinícolas mantêm sua tradição atrelada às origens de seus habitantes, como ocorre na Serra Gaúcha. Uma parte dos produtores e industriais têm ascendência italiana, enquanto outros fogem desse padrão considerado pela literatura como tradicional.”

Apesar da vitivinicultura já ter tido mais relevância na cidade de Videira, ela ainda  é identificada como Capital Catarinense da Uva e do Espumante.

Ali há um Museu do Vinho e também uma Estação Experimental da Epagri – responsável por estudos e experimentos importantes para a vitivinicultura de todo o estado de Santa Catarina.

Também se localiza ali, nos limites da cidade, a vinícola Santa Augusta – da qual já conhecia vários vinhos, mas nesta ocasião tive a oportunidade de visitar e presenciar os trabalhos em meu segundo dia na cidade. Uso trabalhos no plural, porque são vários.
Quem me apresentou estes, as instalações da vinícola, e dois vinhos em degustação foi o próprio enólogo, Marcel Salante. Marcel divide seu tempo em várias tarefas e entre elas está a vinificação para outras empresas – que atualmente representa 70% das atividades da Santa Augusta.

O negócio da vinícola é de perfil industrial, onde a organização, o processo, e o profissionalismo são essenciais para um bom andamento.
A galeria de autoclaves impressiona, e mostra uma das maiores expertises da Santa Augusta: elaborar espumantes pelo método charmat.
Justamente um espumante método charmat foi um dos meus escolhidos para a degustação: Nature Rosé. Ele é um corte de Merlot e Cabernet Sauvignon, um genuíno charmat longo.

“…o método chamado Charmat Longo, consiste em deixar o espumante em contato com as leveduras, aumentando a complexidade sensorial. Essa prática busca um espumante com características próximas ao elaborado pelo método tradicional. O tempo em que o espumante repousa sobre as borras na autoclave varia de dois a 10 meses, em função do perfil do produto que se busca (GIOVANINNI; MANFROI, 2009).”

O enólogo Marcel comentou outra particularidade dos trabalhos com o charmat ali, que é elaborado em autoclaves munidas de um agitador para colocar em suspensão os sedimentos da fermentação, o qual associado ao tempo de um ano em autólise deste Nature Rosé resultou em borbulhas tão finas que poderiam ser confundidas com um perlage de método tradicional.

Degustei também um Pinot Noir 2019 que o Marcel buscou como amostra do tanque de aço inoxidável.
Mas, foi uma garrafa do Nature Rosé que escolhi trazer como lembrança da visita.

Água Doce

Há um pouco menos de 100 km de Videira, mas longe de tudo, está a localidade de Água Doce.

Para lá me dirigi na manhã do segundo dia na região, guiada e acompanhada pela gentil e hospitaleira Estefânia Panceri – quem dedicou tempo e atenção, possibilitando que minha visita à vinícola Villaggio Grando, e foi uma excelente companhia.

Um pouco perdida no cenário simples do Meio Oeste, a vinícola impressiona pela estrutura.
Villaggio Grando tem um estilo de ‘rancho’ americano e cultiva várias culturas além da uva – que ocupa uma pequena parte da grande propriedade.
A madeira aparente em todas as edificações, inclusive na sala de barricas, aponta a origem do investimento: a indústria e comércio de extrativismo, que era o negócio principal dos fundadores, antes do vinho tomar conta – assim nos contou o jovem enólogo que nos conduziu a conhecer a produção da vinícola, Luiz Felipe Farias Oliveira –graduado na primeira turma do primeiro curso superior de Viticultura e Enologia de Santa Catarina, pelo IFSC de Urupema em 2018.

Deixamos a sala de barricas e uma suave música que embalava o sono dos vinhos, para então irmos à recepção e degustação.

O cenário é lindíssimo, mas para desfrutá-lo, conhecer os vinhos e as instalações, há que reservar com antecedência, pois regularmente são poucas as opções para grupos menores de 10 pessoas.

Eu e Estefânia escolhemos a degustação que inclui vinhos disponíveis exclusivamente na vinícola. Degustamos: Nature 2017 (charmat elaborado com Chardonnay e Pinot Noir), Brut 2018 (champenoise elaborado com Chardonnay, Pinot Noir e Pinot Meunier), Sauvignon Blanc, Chardonnay 2018 e também 2019 (com grande diferença de estilo na safra mais recente, o qual foi desenhado pelo enólogo português António Saramago – consultor da vinícola), Pinot Noir 2019,GSM 2012 (corte de Tannat, Malbec e Cabernet Franc), e finalizamos com o Marilla (vinho licoroso elaborado com Petit Manseng e Gros Manseng, e que estagiou 30 meses em carvalho francês).

Ao final, escolhi trazer como lembrança da experiência o Chardonnay 2019, que tinha o charme de ainda nem ter sido rotulado e em seu interior tinha a qualidade e personalidade que António Saramago imprime nos vinhos os quais se envolve.

Tangará

Estefânia, da família que dá nome à vinícola, foi a responsável por eu estar na região. Pois, foi por um convite dela para eu colaborar no primeiro encontro da confraria que eu me desloquei à Videira.
Ela foi minha cicerone nos primeiros dias na cidade, e uma companhia gentil e agradável.
Logo cedo na manhã da quinta-feira, meu primeiro dia na região visitei a primeira vinícola,  que não poderia ter sido outra senão a Panceri – cuja vinícola foi fundada em 1990.

Chegando lá fui direto aos vinhedos provar uvas de Barbera – maduras e quase ao ponto de colheita.
A casta representa a própria trajetória de muitos imigrantes ou descendentes de italianos que persistiram na árdua tarefa de cultivar vinhos finos no Brasil.

Há muito tempo pensava-se que somente as vitis labrusca poderia encher os copos das famílias que trouxeram seus sonhos e sua cultura para cultivar nesta terra brasilis.
Depois se apostou em vitis vinífera com sotaque francês porque era isto que o consumidor queria ouvir.

Mas a dificuldade de adaptação destas às condições tão peculiares do nosso terroir, fez muitos retomarem o que os primeiros imigrantes da terra da bota nunca deveriam ter deixado de lado: as variedades italianas.

O Brasil não é a Itália, tampouco são as condições para o cultivo da uva, mas os imigrantes que povoaram o sul do nosso país buscaram um território com semelhança de clima, relevo e paisagem que se pareciam ao seu local de origem. Então, cultivar castas italianas por aqui é aproveitar toda a sinergia relacionada.

A vinícola e vinhedos estão  a uma altitude de aproximadamente mil metros acima do nível do mar, em encostas de solo arejado, com correntes de ar permanentes e um dos maiores índices de insolação do estado – assim menciona as informações nos site da vinícola.

Depois de comer muita Barbera do pé, em um desjejum que Bacco certamente aprovaria, fui conhecer as instalações.  Comecei pelo varejo, no qual tem um balcão estilo de bar e mesa para degustação, e há uma parede de vidro onde se pode observar os trabalhos nos tanques de aço inoxidável.

Após uma breve conversa com o pai de Estefância, Celso Panceri, senti-me acolhida como é usual na recepção de família italiana.
Eu já conhecia alguns vinhos da vinícola e deixei aos cuidados do patriarca escolher o que eu iria provar, e não errei. Sr. Panceri abriu com orgulho uma preciosidade: o Cabernet Sauvignon 2001 – uma raridade na jovem vitivinicultura de altitude catarinense.
Este vinho era ainda uma produção experimental da vinícola, que na época iniciava a elaborar vinhos com variedades europeias.
Além de um prazer enorme em ter este vinho compartilhado com a família Panceri, fiquei muito animada em conhecer um vinho com tão bom desenvolvimento.

Aproveitei a oportunidade para conhecer as instalações de produção da vinícola, que tem entre suas atividades a produção de vinho comum, suco, vinho fino e espumante método tradicional.

Visitei também o Museu da Vitivinicultura de Santa Catarina, que fica ao lado da vinícola e retrata o início da atividade e os mais de cem anos da imigração italiana no estado.

Como tínhamos o compromisso da confraria à noite, e a organização necessária que antecede esse tipo de evento, decidimos voltar à Videira logo depois do almoço.

O almoço encerrou minha experiência da melhor forma, pois sem muitos preparativos e cerimonias, sentei-me à mesa com a equipe e família Panceri, para um delicioso almoço caseiro regado a suco e vinhos da vinícola.

Na bagagem eu trouxe três vinhos da Panceri: Merlot Reserva 2006, Cabernet Sauvignon Reserva 2012 e o espumante Brut Champenoise Sauvignon Blanc.

Veio junto também as boas lembranças do carinho e atenção que a família Panceri me acolheu, e uma satisfação enorme em ver um empreendimento devotado 100% a vitivinicultura que se sustenta com trabalho árduo, comprometimento e simplicidade.

O resultado não poderia ser outro: vinhos que expressam a busca pela qualidade e identidade própria, e a admiração de quem os conhecem.

Muito obrigada à família Panceri pela acolhida, e em especial à Estefânia – pois graças à sua iniciativa foi possível minha descoberta do Caminho dos Vinhos Terras Altas Catarinenses.

Espero podermos brindar novamente com vinhos longevos e também novos projetos, saúde!
  

Fonte de consulta:
NODARI, Eunice Sueli; FRANK, Zephyr. Vinhos de Altitude no Estado de Santa Catarina: a firmação de uma identidade. Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 11, n. 26, p. 183 - 200, jan./abr. 2019.
DIFERENTES MÉTODOS PARA ELABORAÇÃO DE VINHO ESPUMANTE por Daiane Simonaggio e Daniel Neutzling Lehn
https://www.nsctotal.com.br/colunistas/estela-benetti/vem-ai-o-caminho-dos-vinhos-no-oeste-catarinense 
https://www.tropicalfm99.com.br/noticia/22441/treze-tilias-vinicola-kranz-lanca-projeto-inovador-para-produtores-de-macas-de-santa-catarina

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