Vinhos orgânicos são diferentes?

Como profissional do vinho, sempre que degusto um exemplar que desconheço, procuro investigar as características que este tem em comum a outros e também aquelas que o tornam particular.

Há algo peculiar que percebo ao provar vinhos certificados como orgânico e/ou biodinâmico que chama a minha atenção: uma intensidade mais proeminente de frutas nos aromas e sabores.
Esta mesma percepção já foi compartilhada por outros degustadores em conversas informais a respeito do tema.
Então, como profissional da educação, fui em busca de informações mais consistentes, obtidas por meio de investigação e pesquisa, as quais aqui compartilho.

Concentrei minha pesquisa bibliográfica naquele identificado como vinho orgânico – cuja definição e critério de classificação pode variar.

Vinho orgânico não tem o mesmo significado ao redor do mundo, porque as leis que regulam a produção deste tipo de vinho podem considerar critérios diferentes. Geralmente, o objetivo mais importante é evitar materiais produzidos em laboratório, como fertilizantes e pesticidas, organismos geneticamente modificados e outros aditivos sintéticos (CRAVERO, 2019).
De uma forma mais simplificada, pode-se dizer que os produtos orgânicos são aqueles ecologicamente corretos, que não usam de agrotóxicos e que não fazem mal nem a pessoa que vai ingerir, nem ao meio ambiente que o produziu (JUNIOR, 2016). Por este motivo, este tipo de vinho é conhecido em alguns países como vinho ecológico ou biológico.
Em artigo da revista eletrônica Alimentos sem Mitos (2019), Laís Moro, doutora em Ciência dos Alimentos na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo, destaca que no Brasil a certificação de vinhos orgânicos é feita no vinhedo, pois não diz respeito ao processo de fabricação do vinho.

Como meu foco aqui é identificar o que os estudos já realizados concluíram sobre as diferenças de características sensoriais apresentadas dos vinhos orgânicos em comparação aos convencionais, busquei referências sobre as diferenças na composição química dos vinhos orgânicos em comparação aos convencionais.

Observa-se que a percepção destas das diferenças não são tão evidentes (CRAVEIRO, 2019), e tendem a diminuir com o passar do tempo. Como mencionado por Lais Moro, na citação de um artigo publicado em 2016 na revista Scientia Horticulturae pelas biólogas Caroline Provost, do Centre de Recherche Agroalimentaire de Mirabel, e Karine Pedneault, do Centre de Développement Bioalimentaire de Québec, ambos no Canadá.

“embora a suposição geral seja de que as videiras orgânicas sofrem mais estresses bióticos do que as videiras convencionais e, portanto, deveriam produzir taxas mais altas de metabólitos secundários, incluindo compostos fenólicos, estudos mostraram que os vinhos produzidos a partir de uvas orgânicas e convencionais colhidos no mesmo local e fermentados com protocolo semelhante apresentaram diferença insignificante em seus perfis fenólicos.“

Diz o estudo das autoras mencionadas que, no início, os vinhos orgânicos apresentavam níveis significativamente mais altos de antocianina e trans-resveratrol-3-o-glucosídeo do que os convencionais, mas após seis meses de prateleira, essas diferenças não eram mais detectáveis.

Porém, algumas pessoas relataram em invetigações características peculiares em vinhos orgânicos, usando adjetivos que descrevem uma intensidade maior de frutas e frescor, por exemplo (ROMANO, 2019). Tais características podem estar mais associadas a abordagem para elaboração do vinho orgânico, a qual privilegia a expressão da fruta em uma valorização do seu terroir – o qual, defendem alguns enólogos, tem mais potencial para se revelar sem a interferência dos produtos químicos nos vinhedos (Delmas et al, 2016).

Segundo um estudo feito na Europa, consumidores tendem a fazer um julgamento positivo e também ter tolerância, ao que seria considerado defeito, quando eles têm a consciência de que o vinho é um produto orgânico. Esta tendência, seria decorrente de um efeito halo (ROMANO, 2019) – onde a possibilidade da avaliação do produto, sob um algum viés, interfere no julgamento sobre outros importantes fatores, contaminando o resultado geral. 

Outro estudo, este nos Estados Unidos, revela que os críticos de vinho tendem a classificar melhor vinhos que tenham certificação como orgânicos (DELMAS et al., 2016).

A valorização de produtos orgânicos é recente, mas crescente. No Brasil especificamente, ainda que seja um nicho de mercado, há tendência para aumento na demanda de produtos orgânicos. Porém, há também muitas limitações para atender este mercado. Entre quais: as dificuldades naturais no cultivo segundo os princípios orgânicos, a falta de integração entre os produtores para definir metodologias para esta cultura, posicionamento deste tipo de produto, políticas públicas para incentivar a produção e reavaliar a tributação, falta de comunicação com o mercado consumidor (ARAUJO et al., 2017).

Em consequência desta importância, e também da falta de investigações específicas sobre as características sensoriais peculiares aos vinhos orgânicos, com certeza teremos mais estudos e pesquisas relacionadas que nos auxiliarão a identificar se realmente há diferenças significativas nos vinhos orgânicos. Até o momento, o que sabemos é que grande parte das particulares percebidas como positivas estão relacionadas à probabilidade do indivíduo, ou grupo, aceitar ou preferir produtos orgânicos.

Literalmente, saúde!

Marcia Amaral

Fontes de Referência:

Alimentos sem Mitos, A certificação de vinhos orgânicos diz respeito apenas ao cultivo da uva, 2019, Disponível em  
https://alimentossemmitos.com.br/a-certificacao-de-vinhos-organicos-diz-respeito-apenas-ao-cultivo-da-uva Acessado em 02/08/2021.

Araujo M. V., Costa da Silva, M. A., Callegaro de Menezes, D., & Bruch, K. L. (2017). The perspective of organic wine in Brazil – trends, demands and production. In Proceedings of the 40th World Congress of Vine and Wine, Sofia, Bulgaria, May 29–June 2, 2017. BIO Web of Conferences, 9 (Art. 03011) 6 pp., 2117–4458. Disponível em https://doi.org/10.1051/bioconf/20170903011  Acessado em 02/08/2021.

CRAVERO Maria Carla, Organic and biodynamic wines quality and characteristics: A review, Food Chemistry, Volume 295, 2019, Pages 334-340, ISSN 0308-8146.  Disponível em https://doi.org/10.1016/j.foodchem.2019.05.149. Acessado em 02/08/2021.

DELMAS Magali A, Gergaud Olivier, LIM Jinghui, Does Organic Wine Taste Better? An Analysis of Experts’ Ratings, 2016, Disponível em https://escholarship.org/content/qt7zk151q3/qt7zk151q3.pdf Acessado em 02/08/2021.

JUNIOR Paulo Hayashi, ANÁLISE DOS VINHOS ORGÂNICOS BRASILEIROS: POSICIONAMENTO E PERSPECTIVAS ATUAIS E FUTURAS, Cultura Agronômica, Ilha Solteira, v.25, n.1, p.01-16, 2016, Disponível em https://ojs.unesp.br/index.php/rculturaagronomica/article/download/2446-8355.2016v25n1p01-16/1750 Acessado em 02/08/2021.


ROMANO Mylena, The influence of the organic label on the liking and sensory profile of wines, 2019, Disponível em https://www.repository.utl.pt/bitstream/10400.5/19583/1/MRomano%20Final%20Version%20Vinifera.pdf Acessado em 02/08/2021.

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